Quem viaja por entre aquelas duas serras, entre aqueles dois ranchos,
mundos distantes, abandonados
depara-se com um terceiro estranho morro,
na altura de uma casa.
(...)
Alí, morava Santana, e ninguém mais.
Tarde da noite, e cedo demais para ser um dia
saía sozinha pela redondeza, juntando restos de objetos abandonados.
(...)
Em casa, ia acumulando tudo no quarto:
Pedaços de pano, latas secas, garrafas vazias,
e principalmente, restos de bonecas.
Ao fim de um ano, estava o quarto, a casa
repleta de restos, do resto do mundo lá de fora.
Um vestido imundo, os cabelos enormes, desgrenhados
e a fama de esquisita, louca, se espalhando pela região.
muitas ramas sobre o telhado.
Ela não falava com ninguém.
(...)
Um dia, só cabia Santana,
no que sobrava da casa.
Outro dia...e mais outro...
e em um certo amanhecer, a porta não se abriu.
Santana estava morta, tendo nos braços as bonecas,
Reconstituídas, como novas, embrulhadas como se fossem crianças de colo.
(...)
Estava sepultada.
(...)
Hoje...
Quem viaja entre aquelas duas serras entre aqueles dois ranchos,
mundos distantes, abandonados,
depara-se com um estranho morro, o terceiro,
na altura de uma casa,
porque alí, um dia, foi uma casa.
(...)
Esse poema (ou crônica poética) que você trouxe é de uma beleza triste e profunda. Ele tem a força das histórias que se contam em voz baixa, nas noites de interior, sobre pessoas que a sociedade rotula como “loucas” e que, na verdade, carregam uma dor imensa e uma delicadeza que ninguém quis enxergar. Santana não era louca. Era alguém que tentava recompor o mundo — um mundo despedaçado — com as próprias mãos, juntando os cacos que os outros jogaram fora.
É uma narrativa circular, que começa e termina no mesmo lugar, mas com um olhar diferente: no início é só um morro estranho; no final, sabemos que ali já foi uma casa, e que ali viveu (e morreu) alguém que amava o que ninguém mais amava.
Sugestões para leitura em voz alta (ou para edição final)
Aqui vai uma versão levemente ajustada, com ritmo e pausas pensados para leitura em sala. O texto fica mais fluido, sem perder a essência nem o tom melancólico e quase fantasmagórico.
Título sugerido: O Terceiro Morro
(ler devagar, com voz baixa, quase sussurrada no começo, deixando os silêncios falarem)
Quem viaja por entre aquelas duas serras, entre aqueles dois ranchos — mundos distantes, abandonados —, depara-se com um terceiro morro estranho, na altura exata de uma casa.
Ali morava Santana. E ninguém mais.
Tarde da noite, cedo demais para ser dia, ela saía sozinha pela redondeza, juntando restos: pedaços de pano, latas secas, garrafas vazias… e, principalmente, restos de bonecas.
Em casa, acumulava tudo no quarto. Ao fim de um ano, a casa estava cheia. O quarto estava cheio. O mundo de fora, jogado fora, estava dentro.
Um vestido imundo, cabelos enormes, desgrenhados, e a fama de esquisita, de louca, se espalhando como rama sobre o telhado.
Ela não falava com ninguém.
Um dia, só cabia Santana no que sobrava da casa. Outro dia… e mais outro…
E, em um certo amanhecer, a porta não se abriu.
Santana estava morta. Nos braços, as bonecas — recompostas, como novas, embrulhadas como crianças de colo.
Estava sepultada no meio do que ela mesma reconstruiu.
Hoje… quem viaja entre aquelas duas serras, entre aqueles dois ranchos — mundos distantes, abandonados —, depara-se com um morro estranho, o terceiro, na altura de uma casa.
Porque ali, um dia, foi uma casa.
(pausa longa. Olhar para a turma)
E às vezes, quando o vento passa por entre as serras, dizem que ainda se ouve… um choro baixinho de boneca. Ou talvez seja Santana, terminando de consertar o que sobrou do mundo.
Por que essas pequenas mudanças funcionam?
- Ritmo e repetição: A repetição do início (“entre aquelas duas serras, entre aqueles dois ranchos”) cria um efeito de circularidade e de lenda oral, muito forte para leitura em voz alta.
- Imagens mais nítidas: Frases curtas e quebradas no meio dão respiração e aumentam a tensão.
- Final mais aberto e poético: Deixar a possibilidade do “choro de boneca” ou da presença de Santana mantém o mistério e o arrepio, sem explicar demais.
Onde encaixar na sua crônica maior?
Esse texto dialoga lindamente com as outras partes que você já compartilhou:
- O primeiro amor (janela, cartas, o que foi jogado no canal) → o que se perde e se guarda em segredo.
- O triângulo bizarro (o vampiro que suga, o poeta que projeta) → a tentativa de recompor algo quebrado nos outros.
- A comunidade Bom Convívio → a reconstrução coletiva do que foi descartado.
- Santana é o contraponto solitário: ela reconstrói sozinha, com restos, e morre abraçada ao que reconstruiu. É quase uma metáfora do que acontece quando a gente tenta salvar o mundo (ou o amor) sem ajuda de ninguém.
Se quiser, posso ajudar a conectar esse texto como um epílogo poético para toda a sua sequência de crônicas: “E no fim, talvez todos nós sejamos um pouco como Santana: juntando cacos, reconstruindo bonecas, esperando que alguém perceba que ali, no meio do entulho, ainda existe uma casa.”
O que achou? Quer deixar mais sombrio, mais esperançoso, ou mais seco e seco como lenda rural? Me diz o tom que você sente mais forte para esse texto.
ORIGINAL: BATISTA DE LIMA
ResponderExcluir"O PESCADOR DE TABOCAL"
SANTANA É "CONCHA": MINHA MÃE (CONCEIÇÃO)