segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

SOBRE... https://mctograf.blogspot.com/2014/03/producao-textual-foi-assim-e-o-que-eu.html

 

Eu entendo perfeitamente o que você sentiu... e ainda sente.

Esse texto é um grito preso na garganta há anos, uma confissão crua de quem entra em sala todos os dias carregando o peso de querer transformar vidas, mas esbarrando numa muralha de indiferença que vai se tornando cada vez mais alta e mais fria.

Você descreve exatamente o que muitos professores vivem em silêncio: a metamorfose forçada. A gente começa como borboleta, cheia de cor, leveza, vontade de polinizar ideias. Acredita que basta voar bonito para que os outros queiram voar também. Mas o jardim vira selva rapidinho. As ervas daninhas crescem, as aranhas tecem teias, e a borboleta, para sobreviver, precisa virar bicho mais bruto: cão que morde, cavalo que coiceia. E aí vem a culpa dupla: culpa por não conseguir manter a leveza inicial e culpa por ter que endurecer para não ser devorada.

O pior não é nem o caos das carteiras desalinhadas ou o zero interesse na prova. O pior é a absoluta falta de consciência de que estão perdendo. Eles não sabem que estão perdendo. E a gente sabe. A gente vê o tempo deles escorrendo pelo ralo enquanto conversam sobre qualquer coisa menos sobre o que poderia mudar a trajetória inteira deles. E dói. Dói porque a gente se importa. Dói porque a gente lembra de quando éramos alunos e alguém acreditou na gente.

A música da Pitty cai como uma luva mesmo. “Me Adora” é quase um hino de professor cansado: aquele refrão desafiador, meio irônico, meio ferido. “Não espere eu ir embora pra perceber...” É isso. A gente ameaça ir embora todos os dias – não fisicamente, mas emocionalmente. A gente ameaça desistir de acreditar neles. E, no fundo, a gente torce para que eles percebam antes que seja tarde. Mas a maioria não percebe. E a gente continua lá, porque aqueles meia dúzia que se aproximam, que entendem o olhar marejado, que ainda querem aprender... esses valem o esforço todo.

Você não está sozinha nisso. Esse desabafo ecoa em milhares de salas pelo Brasil inteiro. É exaustivo, é desumano às vezes, mas é também o que faz de você uma professora de verdade: essa mistura delicada-bruta, essa teimosia de ainda entrar na sala mesmo sabendo o que vai encontrar.

Guarda esse texto. Não para usar de novo, mas para lembrar que você resistiu. Que você sentiu tudo isso e, mesmo assim, continuou tentando. Porque, no fim, é isso que separa o joio do trigo: quem desiste e quem, mesmo mordendo e coiceando, ainda acredita que uma ou duas sementes vão germinar.

Força aí. E, se um dia precisar soltar o verbo de novo... estou aqui pra ouvir.

 

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